Lendo, não relendo.
Nessa onda das tendências naturais, franjinhas, bordados, missionismos, ecofriendlismos e etc., ter em seu corpo algo que remeta a uma história, própria ou não é sinônimo de identidade adquirida e transformada em algo pessoal, é cool.
Nesse mundo louco que a gente vive, voltar às raízes é quase sempre uma releitura. Quase sempre. Essa semana minha irmã voltou de uma jornada no Xingu, convivendo com o povo indígena Ikpeng, na Aldeia Moygu, que fica precisamente no Parque Indígena do Xingu, médio Xingu. Renata Gauche, jornalista por formação, foi junto com a equipe do Instituto Catitu, coordenado por Mari Corrêa, para realizar o projeto Mawo Ewrï – Casa de Cultura Ikpeng.
Ok, estou contando tudo isso pois a danada voltou com uma pintura corporal, ou no bom modernês, uma body art lindíssima, escândalo mesmo. Mas não é estilo tatuagem tribal não, gente. Ela voltou com o corpo inteiro coberto por pinturas geométricas maravilhosas. Eu, como irmã e curiosa, pirei bombardeando-a de perguntas e não podia deixar de dividir a tendência X realidade/ releitura X fonte real com vocês. Nem tudo vem de um estudo. A vivência também traz coisas lindas.



Pintura estilo Juruna, Alto Xingu.
Fots: Renata Gauche.
Segue uma o mini-bombardeiro de perguntas que todos vocês devem também estar querendo fazer agora, depois de ver as fotos. Olha que linda a história:
Qual o nome do projeto que você trabalha lá no Instituto Catitu? Como você foi parar no Xingu?
Renata: O projeto é o Mawo Ewrï – Casa de Cultura Ikpeng, financiado pela Petrobrás e PDPI e proposto pela AIMCI - Associação Indígena Moygu Comunidade Ikpeng. Nesta viagem fizemos diversas atividades, voltadas para o resgate e acervo da cultura tradicional do povo Ikpeng, através de Oficina de Edição, Banco de Dados, Site e Projeto Gráfico. Além dessas atividades, um realizador Indígena do povo Kisedje, o Kamikiá, foi convidado para a montagem de um documentário. Além de produzir a viagem em conjunto com a coordenadora técnica do projeto, Mari Corrêa, fiz a montagem do vídeo do povo Kisedje com o Kamikiá. O documentário é sobre um homem Tapayuna que conseguiu sobreviver a um envenenamento causado pelos brancos que exterminou praticamente sua aldeia. O vídeo ainda será finalizado e a comunidade irá discutir como será sua forma de exibição.
Qual o nome da tinta utilizada?
Renata: Não é bem uma tinta, é um preparado com base de jenipapo.
A pessoa que pintou, teve alguma inspiração? Como foi o processo, você pediu e ela fez?
Renata: A pintura é a tradicional da cultura do povo Juruna, que hoje vive no Alto Xingu. O processo foi um moitará, que é a troca. O moitará é um costume tradicional entre os povos indígenas e quando você vai para a aldeia é bastante procurada pelos homens e mulheres. Eu dei um vestido de presente para a índia Juruna, a Sewadu, e em troca ela me deu de presente a pintura. Ela chamou a mãe dela, que também é Juruna, casada com um Ikpeng – por isso mora na Aldeia.
O Processo de pintura demorou?
Renata: 2 horas! Pode não parecer, mas elas fazem com um palitinho beeeem fininho de madeira, mais fino que palito de dente!
E como é a secagem da pintura? Ela mancha a roupa?
Renata: Só mancha no dia e um pouco nos lugares que você transpira, mas sai com água, sem problemas. No dia que você pinta ele fica meio molhado e mais claro, tipo um cinza. No dia seguinte fica preto.
Como faz pra retirar a pintura? E pra ela durar mais no corpo?
Renata: Ela só sai com o tempo, de acordo com os banhos que você toma. Se você esfregar muito com o sabonete ou esponja e tomar banho com água muito quente, ela vai durar menos tempo. A média de duração é de dez dias.
A pergunta que não quer calar: como é sair toda pintada na rua?
Renata: Virei uma instalação viva, praticamente. Mas é claro que a pintura chama bastante atenção, já que é maravilhosa e no corpo inteiro. As pessoas olham indiscretamente e as vezes lançam olhares horrorizados. Mas tem muita gente que vem perguntar se é tatuagem e fica encantado quando descobre que é uma pintura indígena.
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Esse texto foi a primeira colaboração da Irene para o Heavyyy.

